Se alguém vos bater na face direita…

evangelho

…lhe apresenteis também a outra; e que se alguém quiser demandar contra vós, para vos tomar a túnica, também lhes entregueis o manto; e que se alguém vos obrigar a caminhar mil passos com ele, caminheis mais dois mil. – Dai àquele que vos pedir e não repilais aquele que vos queira tomar emprestado. (Mt. V, 38-42)

Nessas linhas, Jesus prega a mansuetude e o combate ao espírito de beligerância. Essa interpretação é a mais comum e a mais direta que se pode extrair do texto. Mas se a leitura é mais atenta e meditada, outras possíveis interpretações começam a surgir, comprovando a riqueza contida nas palavras proferidas pelo Divino Mestre.

O estudo do Direito nos põe diante da ciência da interpretação – a Hermenêutica – e entre os vários postulados que enuncia, há um que nos alerta para o significado que cada palavra tem numa proposição, ou seja, não há palavra inútil numa frase, todas elas encerram um sentido, uma função, e quem as coloca tem um propósito, principalmente em se tratando de Alguém que sabe bem o que diz.

Porque Jesus ao citar a violência física, que é bater no rosto de alguém, especificou “a face direita”? Por que não disse simplesmente “bater na face” ou “bater em uma das faces”? O Mestre fez referência expressa à face direita. Quis Jesus referir-se tão somente ao ato de violência que não deve ser revidado pelo agredido por não ser uma conduta pacífica ou quis dizer algo mais?

Quando tratamos de abordar a passagem evangélica em que Jesus nos adverte  que não saiba a nossa mão esquerda o que faz a nossa mão direita, tratamos de demonstrar que na cultura da época, essa informação aparentemente sem importância – “lado direito” e “lado esquerdo” – tem enorme significado.

Ao se referir ao tapa que alguém desfere na face direita de outrem, Jesus está se referindo a uma agressão que não merece revide ou vingança, isso está claro. Um tapa na face direita poderia significar, também, desafio. Ao propor um duelo, por exemplo, no tempo que essa cultura existia, esse gesto era comumente adotado; então, oferecer a outra face seria rejeitar o desafio. Mas acreditamos que Jesus tinha algo mais a dizer. Ele poderia estar tratando da agressão justa, no sentido de que a pessoa agredida teria feito algo por merecê-la.

Quando um sujeito recebia uma ofensa, algo que indicasse uma desonra ou desrespeito, levando em conta que a ampla maioria das pessoas eram e são destras, era comum o ofendido, usando a mão direita (a mão “certa” e que seria a indicada para castigar alguém por uma ofensa recebida), desferir um golpe na face direita do ofensor, batendo com as costas da mão, como se estivesse cobrando um pedido de desculpas ou aplicando uma reprimenda pela desonra ou desrespeito. A intenção, nesse caso, não é simplesmente agredir ou ferir.

Nas duas proposições seguintes à passagem destacada, o significado e o contexto são os mesmos e guardam lições semelhantes, retratando situações em que uma pessoa é demandada ou cobrada por algo que deve ou que tem a obrigação de fazer, pois só quem deve ou está obrigado a fazer algo (ter uma obrigação) é passível de ser demandado (exceto no caso de demanda indevida).

Acreditamos, assim, que o Mestre também estava querendo falar de humildade e resignação. Reconhecer o erro e aceitar a consequência é um ato de submissão à lei de causa e efeito. Quem age assim está dizendo para si mesmo: se errei ou se faltei com alguma obrigação é justo que eu sofra as consequências!

E Jesus pede para irmos além da consequência, Ele nos conclama a agirmos com honra e justiça, entregando o que devemos, cumprindo nossa obrigação e sofrendo as consequências de nossas ações não somente na mesma medida do débito ou da obrigação, mas em dobro (Lc. 19:1-10), pois, agindo assim, aquele que está em falta demonstra ao ofendido (o credor) que está disposto a recompensar-lhe pelo mal-feito não só quitando a conta, mas fazendo-lhe um bem ou, ainda, aceitando reprimenda dobrada em sinal de arrependimento (daí, talvez, a recomendação ofereça a outra face).

Mais uma vez o evangelho nos dá prova da completude do pensamento do Divino Rabi. A sabedoria e a beleza de Suas lições foram registradas pelos esforçados discípulos de maneira muito simples, como provavelmente Ele as proferiu, chegando, às vezes, a passar desapercebidas a um olhar menos atento.

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