Arquivo mensal: janeiro 2017

Igualdade entre homens e mulheres

Em “O Livro dos Espíritos”, nas questões n. 817 e seg., Kardec aborda o tema da igualdade entre os gêneros. A atualidade das respostas surpreende se levarmos em conta que foram dadas há mais de 150 anos.

Na questão n. 822, lê-se: “A emancipação da mulher segue o progresso da civilização, sua subjugação marcha com a barbárie. Os sexos, aliás, existem apenas no corpo físico; uma vez que os Espíritos podem encarnar em um ou outro, não há diferença entre eles nesse aspecto e, consequentemente, devem desfrutar dos mesmos direitos.”

Fica fácil perceber que as legislações e culturas que teimam em manter e submeter o elemento feminino da sociedade sob o domínio do masculino são indícios claros e incontestáveis do pouco progresso civilizatório e espiritual.

Em muitos casos, utilizam, sem antes deturpar e descontextualizar, textos religiosos para darem ares de autoridade aos preconceitos (e privilégios) que insistem em conservar. Podemos claramente afirmar, por exemplo, que a misoginia pode até ter algo de bíblico (que se reproduz até hoje na proibição ou de se ordenar mulheres ou na dominação masculina que se vê na maioria das religiões), mas não se pode dizer que essa concepção comportamental seja Cristã.

O Cristo, conforme registros dos evangelhos, deu várias demonstrações de que não aprovava o tratamento dado às mulheres de seu tempo. Em muitas passagens do velho testamento percebe-se a condição feminina análoga a de uma propriedade ou semovente (no decálogo, por exemplo, numa série sequencial, a mulher é citada junto de alguns bens no mandamento que condena a cobiça. Não precisa ser especialista em linguística…).

Isso serve para refletirmos o momento em que vivemos. Várias são as manifestações públicas, antes ocultadas pela vergonha, de comportamentos misóginos e machistas, sob pretexto de conservar os valores fundamentais da família.

De onde tiram a concepção de conservar a família é fazer voltar as tradições arcaicas que Jesus tanto combateu?

Porque de todas os argumentos apresentados por religiosos fundamentalistas não se encontram palavras do Cristo?

Porque se revoltam quando exemplos de machismo, misoginia e redução da mulher à condição de objeto (como está no Velho Testamento), muitas vezes dissimulados de livre expressão, são denunciados?

A verdade é que em muitos casos muitas mulheres são por imposição e assimilação cultural levadas a acreditar que não são discriminadas, que não existe esse preconceito, que essa objetificação denunciada é um exagero. Demonstram até conforto com a situação.

Isso nos lembra que a pior forma de combate à opressão e ao abuso é justamente aquela em que o oprimido/abusado a aceita como sendo natural e até inevitável e não enxerga sua real condição.

Ajuda-te a ti mesmo, que o céu te ajudará

Ajuda-te. Busca e acharás. No Evangelho de Mateus, capítulo 7, encontramos valiosas recomendações. Mas, como ajudar a si mesmo? O pressuposto da ação de ajudar alguém é perceber que esse alguém está necessitando de algo ou quando essa pessoa manifesta uma necessidade na intenção de obter ajuda. Como, então, perceber em si mesmo uma necessidade? Como pedir ajuda a si mesmo? Como manifestar a necessidade de ser ajudado a si mesmo?

Sabemos, pelo que encontramos nas obras espíritas, que egoísmo e orgulho são as chagas da humanidade, as bases fundamentais de todos os males que afligem o ser humano (q. 759, LE). Parece óbvio que orgulho e necessidade são “coisas” antagônicas. Quantas pessoas conhecemos que recusam uma ajuda ou fazem de tudo para não parecer que precisam de uma mãozinha? Muitas. O orgulho é tão comum quanto o sono, a sede ou a fome. É básico.

Se somos todos portadores de egoísmo e orgulho, nota-se aí uma grande dificuldade a ser superada para então sermos capazes de ajudarmos a nós mesmos: superar o orgulho e admitir que somos portadores de necessidades.

Parece, então, que a primeira ajuda que temos a dar a nós mesmos é justamente reconhecer que somos necessitados, que precisamos não só da ajuda dos outros, mas principalmente da nossa autoajuda. Esse reconhecimento significa a remoção da primeira dificuldade para se praticar a máxima “ajuda-te a ti mesmo”; é um pressuposto, pois, sem esse ato prévio, preparatório, como poderá o céu operar a nosso favor se não nos “autoajudamos” por achar que não temos necessidades, que não precisamos de ajuda?

Esse rodeio todo é para chegarmos à ideia de humildade. O oposto de orgulho. Sua antítese.

Assim, podemos admitir que a primeira coisa que podemos fazer por nós mesmos, a autoajuda primordial, é procurar afastar o orgulho que nos domina e nos trás a ilusão de que somos infalíveis, que temos as melhores ideias, que somos autossuficientes, que nosso ponto de vista é o melhor, que sempre estamos certos, que nunca vamos ficar doentes, que conseguiremos tudo que o desejarmos, e assim por diante. O orgulho é uma paixão e como tal nos cega.

Essa “autocegueira” é uma consequência inevitável do orgulho e nos expõe repetidamente a situações que drenam nossas energias, que nos deixam exaustos, que nos ferem a autoestima e, por consequência, não permitem que admitamos que as escolhas que fazemos, ainda que não sejamos totalmente responsáveis por elas, pois somos todos mais ou menos ignorantes, estão na gênese dessas sensações que não queremos sentir. Como não enxergamos em nós mesmos as causas dessas situações que nos desagradam, procuramo-las nos outros: é o colega do trabalho que é irritante, é o vizinho que faz barulho e não me deixa estudar, é o filho problema que me preocupa e não me deixa pensar direito, é o pai que não me entende e não me apoia e por isso me sinto frustrado e incapaz, é o chefe que é incoerente e que me persegue e que por isso não consigo dar o meu melhor, e por aí vai.

Isso não quer dizer que nenhuma dessas situações inexistam ou sejam fantasias. Podem ser reais, e quase sempre são, mas a base do problema está na falta de humildade que nos impede de procurar uma maneira de contornar tudo isso ou pelo menos diminuir o poder que têm de nos afetar. O orgulho nos impede de entender que somos nós que temos que mudar nossa atitude diante dos fatos para melhor lidarmos com eles. O orgulhoso acredita, meio que inconscientemente, que pode e tem o dever de modificar as pessoas e o mundo para que se adéquem ao que ele acha que deve ser, que as pessoas e situações ao seu redor devem se encaixar no seu ponto de vista. O orgulhoso, por também ser egoísta, pensa, crê e exige que o mundo gire em torno de si mesmo. Como isso nunca vai acontecer, sofre.

Então, a conclusão a que se pode chegar é que a primeira e mais importante ajuda que podemos dar a nós mesmos é nos esforçarmos para reconhecermos que somos pessoas necessitadas da virtude da humildade e procurar meios de cultivá-la e fazê-la crescer dentro de nós. Para isso, cabe-nos buscar firmemente pensamentos e ações que se oponham ao orgulho. Reconhecer que não somos infalíveis, que outros pontos de vista podem ser melhores que o nosso, que outras pessoas podem ter habilidades superiores e que por isso podem nos ajudar.

Quando estivermos certos de que estamos com a melhor ideia, com o melhor ângulo de visada diante de um problema, ter paciência e tentar demonstrar isso e se não for compreendido, seguir adiante na certeza humilde, na boa-vontade, de estar fazendo o que é melhor.

Autoajudar-se é buscar cultivar a abertura para a conexão criativa e positiva com as pessoas, desenvolver um espírito de colaboração e compartilhamento que irá, inevitavelmente, despertar idênticos sentimentos em todos ao nosso redor, alguns mais rapidamente, outros mais lentamente.

Desrespeito gera desrespeito. Gentileza gera gentileza. Ajuda-te que o céu te ajudará. Lei de causa e efeito.

2017 – O ano que não começou bem

Na Turquia, atentado terrorista no dia da confraternização universal.
Dias depois, nos Estados Unidos, tiros em aeroporto da Flórida.

Simultaneamente, no Brasil, presidiários em cadeias superlotadas se matam às dezenas.

E tudo nos remete à formação do caráter: educação.

Só a educação pode salvar este país (e qualquer outro) das manifestações da ignorância que produz cadeias superlotadas, matanças e chacinas; que está na gênese da intolerância religiosa e de gênero; está na raiz do desrespeito aos idosos, às crianças e às mulheres; está na origem dos desvios do dinheiro público, da sonegação e da corrupção; e, também, é quem produz a crença de que os fins justificam os meios. Não existe acaso, nem acidentes. Está tudo conectado. 

Ética, moral e respeito são valores superiores e tudo que é superior pede uma base, um suporte, uma sustentação que, nesse caso, é justamente a educação (a arte de formar o caráter).

A educação não é papel isolado da família, nem somente da escola: é responsabilidade da coletividade amalgamada no que chamamos sociedade.

Educação é um bem comum e como tal deve fazer parte do patrimônio de cada indivíduo. Deve ser prioridade de qualquer país que tenha cidadãos minimamente conscientes de suas responsabilidades perante seus semelhantes, seus irmãos.

A educação é o único processo capaz de permitir  à humanidade alçar-se a patamares mais elevados de evolução.