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Entrando no labirinto

“Às vezes a mente recebe um golpe tão brutal que se esconde em seu próprio isolamento. Às vezes a realidade é apenas dor, e para fugir dessa dor, a mente tem que abandonar a realidade.”
Patrick Rothfuss

E o isolamento tem um risco grande: muita gente não consegue mais voltar.

O processo de isolamento pode gerar no indivíduo uma paz, uma segurança tão grande e ele se sentir tão bem, tão aliviado e protegido da realidade “cruel”, que, viver na – e da – fantasia torna-se um refúgio, resultado da ilusão de proteção, de distanciamento do que incomoda e faz sofrer (seja a causa real ou não), o que pode levar à alienação do mundo real e a uma disfunção no convívio social.

Desabafar e falar com alguém acaba sendo menos arriscado que se isolar, devendo-se, porém, escolher bem com quem falar, porque, dependendo do caso, pode ser mais perigoso desabafar com um indivíduo inadequado do que buscar o refúgio mental, já que uma pessoa assim fragilizada (consequência do isolamento e da fantasia) pode passar a ser vítima de um abusador/sádico (não necessariamente físico, porque a maioria não é) e, por vezes, este segundo indivíduo também pode estar num processo idêntico de fuga da realidade; ou seja: é o encontro do pão com a manteiga.

Por isso o trabalho dos centros espíritas no acolhimento e na conversa fraterna é tão importante. É um ambiente seguro, em que os voluntários são treinados e selecionados para bem conduzir o processo, sem a “pegada” psicológica. É um trabalho puramente humanitário e é disso que as pessoas mais têm carência: de humanidade para encontrar forças para enfrentar, superar e deixar passar os dissabores que por vezes não podemos evitar.

Desabafar é um meio seguro de encontrar refúgio, de obter alívio sem o risco de entrar num processo de alienação da realidade que pode produzir disfunções comportamentais. Nossa mente é um labirinto e não tem cabo de segurança para achar o caminho de volta sozinho. Mas entrar nela com alguém do lado que esteja atento para mostrar como sair, torna o processo mais seguro.

Já não há justificativa para o erro

Infelizmente, nós seres humanos, ao que parece, ainda vivemos como há 100 anos, quando o assunto é: decisões racionais.

Só que os seres humanos de 1918 não tinham 1% da informação que hoje temos. Não se trata somente de dados. Mas de ciência, método, drogas, capacidade de ação etc.

Hoje temos os dados, inclusive os dados deles, de 1918. Sabemos o que enfrentaram e o que fizeram no enfrentamento da Pandemia de Gripe. Hoje podemos utilizar a estatística. Na época a estatística não era 0,1% do que é hoje. Eles não tinham computadores para tratar toneladas digitais de dados e modelos matemáticos que produzem informações e resultados quase instantâneos.

A ciência médica era praticamente ciência veterinária melhorada e adaptada. A diferença básica entre essas profissões era – grosso modo – de caráter anatômico. Hoje temos a Internet, as comunidades globais estão conectadas, centros acadêmicos interconectados num esforço conjunto para otimizar recursos e esforços, compartilhando a produção de conhecimento, elevando exponencialmente a produtividade.

Em 1918 a comunicação era feita por papel e as distâncias eram vencidas pelo telégrafo – um luxo – e pelos navios. Telefone, então, era novidade que não alcançava nem 1% da humanidade.

Mas na hora de decidir, o espírito do “vamos fazer” toma conta e praticamente jogamos fora toda a vantagem acumulada. Opta-se por fazer, fazer e fazer, ainda que irracionalmente. Opta-se por decidir sem usar informações coerentes, sem usar os dados que dispomos. Decidir sem os métodos desenvolvidos ao longo de décadas para gerar informação com segurança e eficiência.

Como há 100 anos, a credulidade é matriz dos pensamentos e guia das mentes de boa parte da população. E não é monopólio de pessoas sem escola. São profissionais, doutores, gente da academia que teve o privilégio de frequentar o ensino superior e agora na hora que mais precisam da ciência a descartam.

É lamentável. 100 anos de progressos desprezados em nome da fé cega, do fanatismo e do interesse mesquinho, ao custo de vidas, muitas vidas.

O reino do bem virá quando o egoísmo atingir seu ápice

Lendo (relendo) “O Livro dos Espíritos”, chegando nos momentos finais da obra, encontra-se a resposta da espiritualidade à questão 916.

“Quanto maior o mal, mais se torna horrível. Será preciso que o egoísmo cause muito mal para fazer compreender a necessidade de extingui-lo.
Quando os seres humanos tiverem se libertado do egoísmo que os domina, viverão como irmãos, não se fazendo nenhum mal, ajudando-se mutuamente pelo sentimento natural da solidariedade; então o forte será o apoio e não o opressor do fraco, e não se verão mais pessoas desprovidas do indispensável para viver, porque todos praticarão a lei da justiça. É o reino do bem que os Espíritos estão encarregados de preparar.”