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Difícil esse tal Espiritismo

Não se transforma uma sociedade conservando os valores que lhe alicerçam.

Eis um exemplo de como ver a “teoria” do enunciado acima, na prática.

A classe médica não corresponde a 20% da força de trabalho (e os próprios não se consideram “força de trabalho”… 😅).

Mas desde o começo da Pandemia (e antes dela também), é praticamente a única categoria que é ouvida e ou consultada pela mídia para falar do enfrentamento da doença e, se um médico morre, é notícia nacional.

Mas quantos enfermeiros, auxiliares, técnicos, fisioterapeutas já foram consultados, ouvidos ou tiveram a morte noticiada com grande pesar?

Um exemplo: faço parte de um grupo de ZAP de pessoas simpáticas a nossa religião. Nesse grupo tem familiares de duas pessoas com Covid19 e que estão hospitalizados.

Uma é muito querida por todos. Frequentador dos encontros. Pessoa de grande simplicidade e de coração enorme. Falou-se aqui e acolá sobre seu estado de saúde. Não muita coisa.

Aí surge a notícia de que um médico conhecido na cidade está com Covid19 e está também hospitalizado. E depois dessa notícia, o grupo há duas semanas não fala de outra coisa. Tem até corrente de oração com hora marcada… Para o médico.

Só que nunca (pelo menos que eu saiba), fez ele parte do grupo, nem se tem se sabe se tem simpatia pela religião.

O primeiro – gente simples e do bem – segue se recuperando, apesar de ter sido esquecido. E o médico também está se recuperando, só que com atualização diária sobre seu estado de saúde.

Não se transforma uma sociedade conservando os valores que lhe alicerçam.

Entrando no labirinto

“Às vezes a mente recebe um golpe tão brutal que se esconde em seu próprio isolamento. Às vezes a realidade é apenas dor, e para fugir dessa dor, a mente tem que abandonar a realidade.”
Patrick Rothfuss

E o isolamento tem um risco grande: muita gente não consegue mais voltar.

O processo de isolamento pode gerar no indivíduo uma paz, uma segurança tão grande e ele se sentir tão bem, tão aliviado e protegido da realidade “cruel”, que, viver na – e da – fantasia torna-se um refúgio, resultado da ilusão de proteção, de distanciamento do que incomoda e faz sofrer (seja a causa real ou não), o que pode levar à alienação do mundo real e a uma disfunção no convívio social.

Desabafar e falar com alguém acaba sendo menos arriscado que se isolar, devendo-se, porém, escolher bem com quem falar, porque, dependendo do caso, pode ser mais perigoso desabafar com um indivíduo inadequado do que buscar o refúgio mental, já que uma pessoa assim fragilizada (consequência do isolamento e da fantasia) pode passar a ser vítima de um abusador/sádico (não necessariamente físico, porque a maioria não é) e, por vezes, este segundo indivíduo também pode estar num processo idêntico de fuga da realidade; ou seja: é o encontro do pão com a manteiga.

Por isso o trabalho dos centros espíritas no acolhimento e na conversa fraterna é tão importante. É um ambiente seguro, em que os voluntários são treinados e selecionados para bem conduzir o processo, sem a “pegada” psicológica. É um trabalho puramente humanitário e é disso que as pessoas mais têm carência: de humanidade para encontrar forças para enfrentar, superar e deixar passar os dissabores que por vezes não podemos evitar.

Desabafar é um meio seguro de encontrar refúgio, de obter alívio sem o risco de entrar num processo de alienação da realidade que pode produzir disfunções comportamentais. Nossa mente é um labirinto e não tem cabo de segurança para achar o caminho de volta sozinho. Mas entrar nela com alguém do lado que esteja atento para mostrar como sair, torna o processo mais seguro.

Já não há justificativa para o erro

Infelizmente, nós seres humanos, ao que parece, ainda vivemos como há 100 anos, quando o assunto é: decisões racionais.

Só que os seres humanos de 1918 não tinham 1% da informação que hoje temos. Não se trata somente de dados. Mas de ciência, método, drogas, capacidade de ação etc.

Hoje temos os dados, inclusive os dados deles, de 1918. Sabemos o que enfrentaram e o que fizeram no enfrentamento da Pandemia de Gripe. Hoje podemos utilizar a estatística. Na época a estatística não era 0,1% do que é hoje. Eles não tinham computadores para tratar toneladas digitais de dados e modelos matemáticos que produzem informações e resultados quase instantâneos.

A ciência médica era praticamente ciência veterinária melhorada e adaptada. A diferença básica entre essas profissões era – grosso modo – de caráter anatômico. Hoje temos a Internet, as comunidades globais estão conectadas, centros acadêmicos interconectados num esforço conjunto para otimizar recursos e esforços, compartilhando a produção de conhecimento, elevando exponencialmente a produtividade.

Em 1918 a comunicação era feita por papel e as distâncias eram vencidas pelo telégrafo – um luxo – e pelos navios. Telefone, então, era novidade que não alcançava nem 1% da humanidade.

Mas na hora de decidir, o espírito do “vamos fazer” toma conta e praticamente jogamos fora toda a vantagem acumulada. Opta-se por fazer, fazer e fazer, ainda que irracionalmente. Opta-se por decidir sem usar informações coerentes, sem usar os dados que dispomos. Decidir sem os métodos desenvolvidos ao longo de décadas para gerar informação com segurança e eficiência.

Como há 100 anos, a credulidade é matriz dos pensamentos e guia das mentes de boa parte da população. E não é monopólio de pessoas sem escola. São profissionais, doutores, gente da academia que teve o privilégio de frequentar o ensino superior e agora na hora que mais precisam da ciência a descartam.

É lamentável. 100 anos de progressos desprezados em nome da fé cega, do fanatismo e do interesse mesquinho, ao custo de vidas, muitas vidas.