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Meu Reino não é deste mundo

De tudo que Jesus nos legou, este parece ser um dos mandamentos menos lembrado e menos ainda praticado.

Todos os dias, praticamente, assistirmos jogadores de futebol, atletas, políticos, apresentadores de programa de auditório e pessoas comuns que, diante de qualquer acontecimento mudano, atribuem o sucesso a Deus, a Jesus, a Nossa Senhora etc.

Particularmente, nunca vi jogador derrotado em uma partida de futebol ou candidato derrotado numa campanha política fazerem discurso agradecendo a Deus pela derrota. Impressionante como cristãos no geral não praticam o Cristo: a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus – Mateus, 22:21.

O que tem Deus, Jesus ou Maria com futebol, política? Nada. Vence o jogo quem treina mais e durante o jogo mantém a calma e a disciplina tática. Na política, vence… Deixa pra lá.

Jesus deixou esse e muitos outros ensinamentos, mas insistimos em ignorá-los. Deve ser uma das razões pelas quais tomamos decisões infelizes e irefletidas o tempo todo, movidos não pela razão mas pelo sentimentalismo mais primitivo e aí se busca a fé para apoiar essa falta de senso e e de reflexão nas decisões.

Jesus, representante maior do Divino na terra, deixou bem claro que não temos esse direito, o de usar a fé de forma desviada e deturpada. Não se trata aqui de ingratidão, muito pelo contrário, devemos ser gratos ao Pai pela vida, pela saúde e tudo o mais. Trata-se de separar o que deve ser separado.

E por que me chamais: ‘Senhor, Senhor’, e não praticais o que Eu vos ensino? – Lucas, 6:46.

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Setembro Amarelo

Setembro de 2017 passou. Neste ano, a questão do sofrimento psíquico e o suicídio foi debatida com a seriedade que se espera. No entanto, também revelou como ainda é patente a ignorância acerca do sofrimento moral e como é comum a falta de capacidade de respeitar e sentir misericórdia por quem passa por isso.

Sente-se empatia com grande facilidade diante da dor física, do sofrimento de um doente crônico, da pobreza material. Mas como é difícil a empatia pela dor moral de alguém; por isso, cobra-se uma causa e se avalia se esta é suficiente ou não para produzir a dor que o outro diz sentir.

Tratando-se de dor física, a empatia, o pôr-se no lugar do outro, flui com relativa facilidade e sabe-se que há meios disponíveis para afastá-la. Se dói um dente, vai-se ao dentista, trata-se o problema ou pode-se até extrair o infeliz se não houver outro jeito. O filme Náufrago, extrelado por Tom Hanks, retrata exemplo de desespero em que o personagem é levado a radicalizar e extrair, sem anestesia e sem equipamentos apropriados, um molar inflamado.

E tem o caso de Aron Alston, alpinista que ficou preso por cinco dias no deserto, com a mão esmagada e presa por uma pesada rocha, que foi obrigado pelas circunstâncias a ter que fraturar os dois ossos do braço e, com ajuda de um canivete precário, teve que amputá-lo.

Esses dois exemplos mostram que, quando a dor física e a dificuldade é insuportável, somos levados a atos extremos. Esses casos despertam nossa empatia e somos capazes de imaginar o sofrimento que os levou ao desespero, afinal, quase todos já sentimos alguma dor forte e quase insuportável.

Mas quando se trata de uma dor moral, o que fazer? Não se pode simplesmente amputar ou extrair a fonte do problema. A dor da alma é muito mais complexa, mais difícil de lidar, não está localizada e envolve todo o ser.

Em relação ao suicídio, a cultura ocidental firmou-se no sentido de julgar e condenar. Começando pelo próprio nome dado ao ato de por fim à própria vida: suicídio. A palavra por si só já contém inegável carga de julgamento e reprovação.

O verbete suicídio contém radical que remete ao conceito de matar, assassinar. O Papa Francisco, inclusive, já criticou a postura da Igreja que negava à família de um suicida, em seus rituais, o consolo espiritual da perda, proibindo que se fizesse celebração em memória do ente querido.

O mundo oriental, no Japão por exemplo, associa ao suicídio a ideia de respeito, misericórdia e, em certas situações, um dever, já que por seus valores culturais compreendem que, somente uma dor moral muito forte pode levar alguém ao suicídio como única solução.

É com essa postura de respeito que atua a CVV – Centro de Valorização da Vida (Disque 188). Entidade constituída há mais de cinquenta anos que procura congregar voluntários dispostos a tentar aliviar a dor de quem sofre, e assim evitar – ou ao menos tentar – que alguém cometa o ato extremo, sem julgamentos, sem condenações, mas com muita compaixão.

Que cada vez mais o exemplo da CVV se multiplique e mais gente entenda, na prática, o que Jesus estava querendo dizer com: não julgueis; sejais misericordiosos; amai-vos uns aos outros como eu vos amei.

E quem sabe, assim, tenhamos cada vez menos pessoas tentando por fim à própria vida. E se praticarmos o respeito, a indulgência e a misericórdia nas relações diárias, provavelmente haverá redução do número daquelas que cogitam o suicídio.

Ajuda-te a ti mesmo, que o céu te ajudará

Ajuda-te. Busca e acharás. No Evangelho de Mateus, capítulo 7, encontramos valiosas recomendações. Mas, como ajudar a si mesmo? O pressuposto da ação de ajudar alguém é perceber que esse alguém está necessitando de algo ou quando essa pessoa manifesta uma necessidade na intenção de obter ajuda. Como, então, perceber em si mesmo uma necessidade? Como pedir ajuda a si mesmo? Como manifestar a necessidade de ser ajudado a si mesmo?

Sabemos, pelo que encontramos nas obras espíritas, que egoísmo e orgulho são as chagas da humanidade, as bases fundamentais de todos os males que afligem o ser humano (q. 759, LE). Parece óbvio que orgulho e necessidade são “coisas” antagônicas. Quantas pessoas conhecemos que recusam uma ajuda ou fazem de tudo para não parecer que precisam de uma mãozinha? Muitas. O orgulho é tão comum quanto o sono, a sede ou a fome. É básico.

Se somos todos portadores de egoísmo e orgulho, nota-se aí uma grande dificuldade a ser superada para então sermos capazes de ajudarmos a nós mesmos: superar o orgulho e admitir que somos portadores de necessidades.

Parece, então, que a primeira ajuda que temos a dar a nós mesmos é justamente reconhecer que somos necessitados, que precisamos não só da ajuda dos outros, mas principalmente da nossa autoajuda. Esse reconhecimento significa a remoção da primeira dificuldade para se praticar a máxima “ajuda-te a ti mesmo”; é um pressuposto, pois, sem esse ato prévio, preparatório, como poderá o céu operar a nosso favor se não nos “autoajudamos” por achar que não temos necessidades, que não precisamos de ajuda?

Esse rodeio todo é para chegarmos à ideia de humildade. O oposto de orgulho. Sua antítese.

Assim, podemos admitir que a primeira coisa que podemos fazer por nós mesmos, a autoajuda primordial, é procurar afastar o orgulho que nos domina e nos trás a ilusão de que somos infalíveis, que temos as melhores ideias, que somos autossuficientes, que nosso ponto de vista é o melhor, que sempre estamos certos, que nunca vamos ficar doentes, que conseguiremos tudo que o desejarmos, e assim por diante. O orgulho é uma paixão e como tal nos cega.

Essa “autocegueira” é uma consequência inevitável do orgulho e nos expõe repetidamente a situações que drenam nossas energias, que nos deixam exaustos, que nos ferem a autoestima e, por consequência, não permitem que admitamos que as escolhas que fazemos, ainda que não sejamos totalmente responsáveis por elas, pois somos todos mais ou menos ignorantes, estão na gênese dessas sensações que não queremos sentir. Como não enxergamos em nós mesmos as causas dessas situações que nos desagradam, procuramo-las nos outros: é o colega do trabalho que é irritante, é o vizinho que faz barulho e não me deixa estudar, é o filho problema que me preocupa e não me deixa pensar direito, é o pai que não me entende e não me apoia e por isso me sinto frustrado e incapaz, é o chefe que é incoerente e que me persegue e que por isso não consigo dar o meu melhor, e por aí vai.

Isso não quer dizer que nenhuma dessas situações inexistam ou sejam fantasias. Podem ser reais, e quase sempre são, mas a base do problema está na falta de humildade que nos impede de procurar uma maneira de contornar tudo isso ou pelo menos diminuir o poder que têm de nos afetar. O orgulho nos impede de entender que somos nós que temos que mudar nossa atitude diante dos fatos para melhor lidarmos com eles. O orgulhoso acredita, meio que inconscientemente, que pode e tem o dever de modificar as pessoas e o mundo para que se adéquem ao que ele acha que deve ser, que as pessoas e situações ao seu redor devem se encaixar no seu ponto de vista. O orgulhoso, por também ser egoísta, pensa, crê e exige que o mundo gire em torno de si mesmo. Como isso nunca vai acontecer, sofre.

Então, a conclusão a que se pode chegar é que a primeira e mais importante ajuda que podemos dar a nós mesmos é nos esforçarmos para reconhecermos que somos pessoas necessitadas da virtude da humildade e procurar meios de cultivá-la e fazê-la crescer dentro de nós. Para isso, cabe-nos buscar firmemente pensamentos e ações que se oponham ao orgulho. Reconhecer que não somos infalíveis, que outros pontos de vista podem ser melhores que o nosso, que outras pessoas podem ter habilidades superiores e que por isso podem nos ajudar.

Quando estivermos certos de que estamos com a melhor ideia, com o melhor ângulo de visada diante de um problema, ter paciência e tentar demonstrar isso e se não for compreendido, seguir adiante na certeza humilde, na boa-vontade, de estar fazendo o que é melhor.

Autoajudar-se é buscar cultivar a abertura para a conexão criativa e positiva com as pessoas, desenvolver um espírito de colaboração e compartilhamento que irá, inevitavelmente, despertar idênticos sentimentos em todos ao nosso redor, alguns mais rapidamente, outros mais lentamente.

Desrespeito gera desrespeito. Gentileza gera gentileza. Ajuda-te que o céu te ajudará. Lei de causa e efeito.