Arquivo da categoria: Reflexões

Meu Reino não é deste mundo

De tudo que Jesus nos legou, este parece ser um dos mandamentos menos lembrado e menos ainda praticado.

Todos os dias, praticamente, assistirmos jogadores de futebol, atletas, políticos, apresentadores de programa de auditório e pessoas comuns que, diante de qualquer acontecimento mudano, atribuem o sucesso a Deus, a Jesus, a Nossa Senhora etc.

Particularmente, nunca vi jogador derrotado em uma partida de futebol ou candidato derrotado numa campanha política fazerem discurso agradecendo a Deus pela derrota. Impressionante como cristãos no geral não praticam o Cristo: a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus – Mateus, 22:21.

O que tem Deus, Jesus ou Maria com futebol, política? Nada. Vence o jogo quem treina mais e durante o jogo mantém a calma e a disciplina tática. Na política, vence… Deixa pra lá.

Jesus deixou esse e muitos outros ensinamentos, mas insistimos em ignorá-los. Deve ser uma das razões pelas quais tomamos decisões infelizes e irefletidas o tempo todo, movidos não pela razão mas pelo sentimentalismo mais primitivo e aí se busca a fé para apoiar essa falta de senso e e de reflexão nas decisões.

Jesus, representante maior do Divino na terra, deixou bem claro que não temos esse direito, o de usar a fé de forma desviada e deturpada. Não se trata aqui de ingratidão, muito pelo contrário, devemos ser gratos ao Pai pela vida, pela saúde e tudo o mais. Trata-se de separar o que deve ser separado.

E por que me chamais: ‘Senhor, Senhor’, e não praticais o que Eu vos ensino? – Lucas, 6:46.

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A porta larga do comodismo

No livro de Números, cap. 14, encontramos passagem muito instrutiva:

E todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e contra Arão; e toda a congregação lhes disse: Quem dera tivéssemos morrido na terra do Egito! ou, mesmo neste deserto!
E por que o Senhor nos traz a esta terra, para cairmos à espada, e para que nossas mulheres e nossas crianças sejam por presa? Não nos seria melhor voltarmos ao Egito?
E diziam uns aos outros: Constituamos um líder, e voltemos ao Egito.

O povo hebreu, escravizado no Egito, sonhava com a liberdade, clamava por ela. Surgida a oportunidade da conquista, nas primeiras dificuldades, passam a murmurar e admitir o retorno ao Egito, o que se significava voltar à condição de escravo.

Esse comportamento é atávico. Todos querem e sonham com a liberdade e o poder que daí advém. No entanto, tudo tem um preço, não há bônus sem o corresponde ônus. Ser livre implica em ter que lutar todos os dias pela manutenção da autonomia, de obter e conquistar tudo o que garante essa liberdade. Essa característica de abandonar a luta diante das primeiras dificuldades é muito comum e recorrente. Querer usufruir de algo que se considera bom e benéfico é comum e recorrente, mas ter que assumir a responsabilidade correspondente, aí já começa a complicar.

Muitos, por isso, acabam por aceitar a porta larga das soluções fáceis e instantâneas, inclusive o retorno à escravidão. A liberdade e o livre-arbítrio são coisas difíceis de se conquistar e lidar, é preciso esforço para conquistá-la e todos os dias reiniciar a luta pela sua manutenção e pelo constante aprendizado no bom uso dessas faculdades. As dificuldades da luta fazem muitos desistirem e, como na passagem bíblica, até cogitar em se submeter à escravidão que antes era abominada, nas suas variadas formas.

Todos queremos ser livres. Porém, estamos dispostos a lutar por merecer?

 

 

Quid est Veritas?

A pergunta que Pilatos fez a Jesus, título deste post, ressoa pelos séculos e continuamos a questionar: que é a Verdade? Vivemos num mundo de muitas verdades, muitas com pretensões de absolutas. No campo das crenças religiosas, poucas assumem sua parcialidade, seu limite e sua relatividade.

Esse modo peculiar de tratar a verdade se repete no campo individual. Temos a tendência de defender um ponto de vista, “a velha opinião formada sobre tudo” – diria o poeta -, como sendo a medida exata e única que explica com exclusão de quaisquer outros pontos de vista, a verdade sobre os fatos, sobre os comportamentos, enfim: sobre tudo! E a imprensa tem exercido um papel relevante e preocupante nesse processo, tendo em vista que o tratamento da informação se faz, por ela, predominantemente se utilizando deste modo peculiar de tratar “a verdade”.

A filosofia, ramo importantíssimo do pensar e do conhecimento humano, ameaçado de ser expulso do currículo das escolas, nos oferece oportunidade de pensar – e repensar – sobre o tema que instigava Pôncio Pilatos há dois mil anos. Afinal que é a verdade? Jesus, na ocasião, ficou em silêncio. Alguns poderão imaginar que Ele preferiu não dar uma resposta. Mas o Seu silêncio foi A Resposta.

Sobre o tema e sua vertente mais atual e moderna, a pós-verdade, recomendamos muitíssimo a leitura deste artigo de Marcos de Aguiar Vilas-Bôas, cujo trecho que mais se destaca, em nosso opinião, é o seguinte:

Se há alguma verdade, ela não é deste plano. No nível de consciência atual do ser humano, ele apenas pode apreender perspectivas limitadas dos fenômenos e objetos. A verdade, aquela compreendida como a correspondência entre o fato em linguagem e o evento, entre aquilo que se diz e aquilo que se tem na realidade, não existe na Terra. Se não há essa correspondência, pois há apenas padrões sociais (ex. cultura) e naturais (ex. os sentido humanos) que delineiam a comunicação, não há verdade tal qual concebida ao longo da história humana.

Também não há verdade relativa, normalmente compreendida como aquela que surge na comunicação (verdade por consenso), pois também não há correspondência entre o fato pensado em linguagem por uma pessoa e o pensado por outra. Cada qual molda a sua realidade de uma forma, ainda que submetida por eventos objetivos em si, mas sempre sujeitos à subjetividade de cada ser humano, por mais simples que sejam os eventos.

Para o artigo completo, acesse: Pós-verdade: o conceito político da moda é equivocado

Boa leitura!