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A porta larga do comodismo

No livro de Números, cap. 14, encontramos passagem muito instrutiva:

E todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e contra Arão; e toda a congregação lhes disse: Quem dera tivéssemos morrido na terra do Egito! ou, mesmo neste deserto!
E por que o Senhor nos traz a esta terra, para cairmos à espada, e para que nossas mulheres e nossas crianças sejam por presa? Não nos seria melhor voltarmos ao Egito?
E diziam uns aos outros: Constituamos um líder, e voltemos ao Egito.

O povo hebreu, escravizado no Egito, sonhava com a liberdade, clamava por ela. Surgida a oportunidade da conquista, nas primeiras dificuldades, passam a murmurar e admitir o retorno ao Egito, o que se significava voltar à condição de escravo.

Esse comportamento é atávico. Todos querem e sonham com a liberdade e o poder que daí advém. No entanto, tudo tem um preço, não há bônus sem o corresponde ônus. Ser livre implica em ter que lutar todos os dias pela manutenção da autonomia, de obter e conquistar tudo o que garante essa liberdade. Essa característica de abandonar a luta diante das primeiras dificuldades é muito comum e recorrente. Querer usufruir de algo que se considera bom e benéfico é comum e recorrente, mas ter que assumir a responsabilidade correspondente, aí já começa a complicar.

Muitos, por isso, acabam por aceitar a porta larga das soluções fáceis e instantâneas, inclusive o retorno à escravidão. A liberdade e o livre-arbítrio são coisas difíceis de se conquistar e lidar, é preciso esforço para conquistá-la e todos os dias reiniciar a luta pela sua manutenção e pelo constante aprendizado no bom uso dessas faculdades. As dificuldades da luta fazem muitos desistirem e, como na passagem bíblica, até cogitar em se submeter à escravidão que antes era abominada, nas suas variadas formas.

Todos queremos ser livres. Porém, estamos dispostos a lutar por merecer?

 

 

Ajuda-te a ti mesmo, que o céu te ajudará

Ajuda-te. Busca e acharás. No Evangelho de Mateus, capítulo 7, encontramos valiosas recomendações. Mas, como ajudar a si mesmo? O pressuposto da ação de ajudar alguém é perceber que esse alguém está necessitando de algo ou quando essa pessoa manifesta uma necessidade na intenção de obter ajuda. Como, então, perceber em si mesmo uma necessidade? Como pedir ajuda a si mesmo? Como manifestar a necessidade de ser ajudado a si mesmo?

Sabemos, pelo que encontramos nas obras espíritas, que egoísmo e orgulho são as chagas da humanidade, as bases fundamentais de todos os males que afligem o ser humano (q. 759, LE). Parece óbvio que orgulho e necessidade são “coisas” antagônicas. Quantas pessoas conhecemos que recusam uma ajuda ou fazem de tudo para não parecer que precisam de uma mãozinha? Muitas. O orgulho é tão comum quanto o sono, a sede ou a fome. É básico.

Se somos todos portadores de egoísmo e orgulho, nota-se aí uma grande dificuldade a ser superada para então sermos capazes de ajudarmos a nós mesmos: superar o orgulho e admitir que somos portadores de necessidades.

Parece, então, que a primeira ajuda que temos a dar a nós mesmos é justamente reconhecer que somos necessitados, que precisamos não só da ajuda dos outros, mas principalmente da nossa autoajuda. Esse reconhecimento significa a remoção da primeira dificuldade para se praticar a máxima “ajuda-te a ti mesmo”; é um pressuposto, pois, sem esse ato prévio, preparatório, como poderá o céu operar a nosso favor se não nos “autoajudamos” por achar que não temos necessidades, que não precisamos de ajuda?

Esse rodeio todo é para chegarmos à ideia de humildade. O oposto de orgulho. Sua antítese.

Assim, podemos admitir que a primeira coisa que podemos fazer por nós mesmos, a autoajuda primordial, é procurar afastar o orgulho que nos domina e nos trás a ilusão de que somos infalíveis, que temos as melhores ideias, que somos autossuficientes, que nosso ponto de vista é o melhor, que sempre estamos certos, que nunca vamos ficar doentes, que conseguiremos tudo que o desejarmos, e assim por diante. O orgulho é uma paixão e como tal nos cega.

Essa “autocegueira” é uma consequência inevitável do orgulho e nos expõe repetidamente a situações que drenam nossas energias, que nos deixam exaustos, que nos ferem a autoestima e, por consequência, não permitem que admitamos que as escolhas que fazemos, ainda que não sejamos totalmente responsáveis por elas, pois somos todos mais ou menos ignorantes, estão na gênese dessas sensações que não queremos sentir. Como não enxergamos em nós mesmos as causas dessas situações que nos desagradam, procuramo-las nos outros: é o colega do trabalho que é irritante, é o vizinho que faz barulho e não me deixa estudar, é o filho problema que me preocupa e não me deixa pensar direito, é o pai que não me entende e não me apoia e por isso me sinto frustrado e incapaz, é o chefe que é incoerente e que me persegue e que por isso não consigo dar o meu melhor, e por aí vai.

Isso não quer dizer que nenhuma dessas situações inexistam ou sejam fantasias. Podem ser reais, e quase sempre são, mas a base do problema está na falta de humildade que nos impede de procurar uma maneira de contornar tudo isso ou pelo menos diminuir o poder que têm de nos afetar. O orgulho nos impede de entender que somos nós que temos que mudar nossa atitude diante dos fatos para melhor lidarmos com eles. O orgulhoso acredita, meio que inconscientemente, que pode e tem o dever de modificar as pessoas e o mundo para que se adéquem ao que ele acha que deve ser, que as pessoas e situações ao seu redor devem se encaixar no seu ponto de vista. O orgulhoso, por também ser egoísta, pensa, crê e exige que o mundo gire em torno de si mesmo. Como isso nunca vai acontecer, sofre.

Então, a conclusão a que se pode chegar é que a primeira e mais importante ajuda que podemos dar a nós mesmos é nos esforçarmos para reconhecermos que somos pessoas necessitadas da virtude da humildade e procurar meios de cultivá-la e fazê-la crescer dentro de nós. Para isso, cabe-nos buscar firmemente pensamentos e ações que se oponham ao orgulho. Reconhecer que não somos infalíveis, que outros pontos de vista podem ser melhores que o nosso, que outras pessoas podem ter habilidades superiores e que por isso podem nos ajudar.

Quando estivermos certos de que estamos com a melhor ideia, com o melhor ângulo de visada diante de um problema, ter paciência e tentar demonstrar isso e se não for compreendido, seguir adiante na certeza humilde, na boa-vontade, de estar fazendo o que é melhor.

Autoajudar-se é buscar cultivar a abertura para a conexão criativa e positiva com as pessoas, desenvolver um espírito de colaboração e compartilhamento que irá, inevitavelmente, despertar idênticos sentimentos em todos ao nosso redor, alguns mais rapidamente, outros mais lentamente.

Desrespeito gera desrespeito. Gentileza gera gentileza. Ajuda-te que o céu te ajudará. Lei de causa e efeito.

A reforma íntima. Por que realizá-la?

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Por Luiz Guimarães

Dentre os pressupostos da Doutrina Espírita, há um que se impõe para todo aquele que deseja elevar-se: a reforma íntima. Essa atitude é pessoal, intransferível e só acontece se nos conhecermos.

Para tal é preciso uma reflexão profunda para observarmos nossas inúmeras imperfeições e extirpá-las da nossa prática diária. Antes de tudo, a humildade é a virtude de primeira grandeza para encetarmos esse trabalho. Quando comungamos com ela, afastamos de imediato o orgulho, a prepotência, a vaidade, dentre tantos outros infortúnios que nos assolam.

O livro Reforma Íntima Sem Martírio, psicografia do espírita Ermance Dufaux, por Wanderley Soares de Oliveira, expõe claramente que não devemos nos culpar nem tampouco nos condenar. Devemos sim nos perdoar antes de tudo e seguirmos adiante buscando não mais errar como dantes. À mulher flagrada em adultério Jesus disse: “Vai, e de agora em diante não peques mais”.

Ainda na mencionada obra consta:

“… A única postura que nos assegurará a mínima certeza de que algo estamos realizando em favor de nossa ascensão espiritual, na carne ou fora dela, é a continuidade que damos aos projetos de renovação que idealizamos”.

Há incontáveis trabalhos que ratificam essa assertiva que nos impulsiona para a necessária reforma.

Devemos aperceber-nos de que a presente existência, como outras que ainda teremos, é uma escola cujo escopo é essencialmente evolutivo e para tal, cumpre-nos o aperfeiçoamento intelectual e moral. Esse é o programa a ser enfrentado.

Essas oportunidades são oferecidas pelo Pai por conta da sua Misericórdia Infinita. Apesar de sermos falhos em diversos aspectos da vida. Ele nos oportuniza sempre novas condições de crescimento. Se nessa existência plantamos sementes do bem em sua maior amplitude, envolvendo virtudes como a caridade, estaremos edificando nossas caminhadas futuras, onde poderemos colher frutos bem melhores do que os atuais.

Trata-se de um processo de certa forma lento, face ao nosso orgulho que impede que nossa evolução tenha mais celeridade. Contudo, isso pode ser revertido, a depender da nossa coragem e perseverança na busca desse objetivo.

Tenhamos em mente que o resultado desse esforço recairá principalmente nós mesmos. Mas de forma indireta atingirá os que nos cercam face ao exemplo que poderemos ligar. No nosso dia a dia sempre temos em quem nos espelharmos e quem assim proceder estará refletindo imagens e atitudes dignas de serem seguidas.

Jesus foi o exemplo maior que tivemos! Ele pregou com a sua Santa Palavra a forma como nos conduzirmos e deixou-nos a prática do bem como sendo a semente que nós devemos germinar. Esse trabalho evolutivo é comum a todos nós. A estrada é única cada um com sua trilha e responsabilidade. Enfim, nós construímos as páginas da nossa história que dependendo dos nossos atos, trará benefícios ou não na existência futura…

Texto publicado no Jornal do Commercio.