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Setembro Amarelo

Setembro de 2017 passou. Neste ano, a questão do sofrimento psíquico e o suicídio foi debatida com a seriedade que se espera. No entanto, também revelou como ainda é patente a ignorância acerca do sofrimento moral e como é comum a falta de capacidade de respeitar e sentir misericórdia por quem passa por isso.

Sente-se empatia com grande facilidade diante da dor física, do sofrimento de um doente crônico, da pobreza material. Mas como é difícil a empatia pela dor moral de alguém; por isso, cobra-se uma causa e se avalia se esta é suficiente ou não para produzir a dor que o outro diz sentir.

Tratando-se de dor física, a empatia, o pôr-se no lugar do outro, flui com relativa facilidade e sabe-se que há meios disponíveis para afastá-la. Se dói um dente, vai-se ao dentista, trata-se o problema ou pode-se até extrair o infeliz se não houver outro jeito. O filme Náufrago, extrelado por Tom Hanks, retrata exemplo de desespero em que o personagem é levado a radicalizar e extrair, sem anestesia e sem equipamentos apropriados, um molar inflamado.

E tem o caso de Aron Alston, alpinista que ficou preso por cinco dias no deserto, com a mão esmagada e presa por uma pesada rocha, que foi obrigado pelas circunstâncias a ter que fraturar os dois ossos do braço e, com ajuda de um canivete precário, teve que amputá-lo.

Esses dois exemplos mostram que, quando a dor física e a dificuldade é insuportável, somos levados a atos extremos. Esses casos despertam nossa empatia e somos capazes de imaginar o sofrimento que os levou ao desespero, afinal, quase todos já sentimos alguma dor forte e quase insuportável.

Mas quando se trata de uma dor moral, o que fazer? Não se pode simplesmente amputar ou extrair a fonte do problema. A dor da alma é muito mais complexa, mais difícil de lidar, não está localizada e envolve todo o ser.

Em relação ao suicídio, a cultura ocidental firmou-se no sentido de julgar e condenar. Começando pelo próprio nome dado ao ato de por fim à própria vida: suicídio. A palavra por si só já contém inegável carga de julgamento e reprovação.

O verbete suicídio contém radical que remete ao conceito de matar, assassinar. O Papa Francisco, inclusive, já criticou a postura da Igreja que negava à família de um suicida, em seus rituais, o consolo espiritual da perda, proibindo que se fizesse celebração em memória do ente querido.

O mundo oriental, no Japão por exemplo, associa ao suicídio a ideia de respeito, misericórdia e, em certas situações, um dever, já que por seus valores culturais compreendem que, somente uma dor moral muito forte pode levar alguém ao suicídio como única solução.

É com essa postura de respeito que atua a CVV – Centro de Valorização da Vida (Disque 188). Entidade constituída há mais de cinquenta anos que procura congregar voluntários dispostos a tentar aliviar a dor de quem sofre, e assim evitar – ou ao menos tentar – que alguém cometa o ato extremo, sem julgamentos, sem condenações, mas com muita compaixão.

Que cada vez mais o exemplo da CVV se multiplique e mais gente entenda, na prática, o que Jesus estava querendo dizer com: não julgueis; sejais misericordiosos; amai-vos uns aos outros como eu vos amei.

E quem sabe, assim, tenhamos cada vez menos pessoas tentando por fim à própria vida. E se praticarmos o respeito, a indulgência e a misericórdia nas relações diárias, provavelmente haverá redução do número daquelas que cogitam o suicídio.

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