Fenômenos físicos e espiritismo

Allan Kardec já alertava para os riscos dessa modalidade de mediunidade e os cuidados necessários para lidar com esses tipos de fenômenos.

Não bastassem os riscos envolvidos, é a modalidade que mais atrai a atenção e é a mais fácil de fraudar. Não se pode negar que os fenômenos físicos estão no surgimento da doutrina espírita. Chamaram a atenção do Prof. Rivail. Mas superada a fase da curiosidade, o professor passou a dar primazia a fenômenos intelectuais: psicografia e psicofonia.

Logo a análise passou a se concentrar no conteúdo das mensagens e instruções, quanto à lógica e à coerência com o pensamento da maioria das comunicações (CUEE) e do que a ciência e a filosofia já ofereciam.

Ideias são muito mais difíceis de fraudar e mais difíceis de analisar também e não é atraente para as massas, o que normalmente afasta os prestidigitadores.

No Brasil, o espiritismo enveredou por uma característica típica dos povos latinos: culto a personalidade. Kardec sabia que a exposição da mediunidade poderia (e pode) por a perder um medium e isso já era um problema em sua época, por isso omitia os nomes e não confiava as comunicações a um único médium, portanto, os espíritas brasileiros tem muito a aprender com as obras básicas do espiritismo.

De outro lado, não se pode avaliar o trabalho de Kardec como pseudociência pois não existiam as técnicas e os métodos que hoje conhecemos. Cesare Lombroso, por exemplo, da mesma época, acreditava fazer ciência em seus estudos sobre criminologia.

É preciso sempre ter mente que uma pessoa é o que é em função de suas experiências e do que existe e acontece no seu tempo.

O trabalho de Kardec foi um esforço respeitável na tentativa de análise e compreensão de fenômenos psíquicos partindo praticamente do nada, quase zero, numa época em que tais fenômenos eram coisas de padre. Não por acaso a doutrina espírita foi duramente criticada e combatida pela Igreja.

O mesmo equívoco há na tentativa de dogmatizar os achados de Kardec e os seus métodos. Muito do material que ele trabalhou, hoje está na psicologia, na psiquiatria e na sociologia (ramos que sequer existiam). Outra parte serve apenas como fonte histórica.

Kardec fez um grande esforço no sentido de conciliar religião com filosofia e ciência. Não se pode afirmar que tenha tido pleno sucesso, afinal, faltou quem desenvolvesse o método e a abordagem para acompanhar o desenvolvimento das técnicas e do conhecimento científico.

Sabemos, por exemplo, dos enxertos que a doutrina espírita passou a sofrer após sua morte, não obstante o esforço de muitos para tentar protegê-la das influências de doutrinas exóticas e proto-religiosas.

Aliás, o próprio Kardec recomendou: se uma tese apresentada pelo espiritsmo não se encaixar ou for negada pela ciência, fica com esta. Infelizmente, os espíritas costumam não levar a sério a recomendação.

O esforço foi nobre, incipiente, somente 10 anos de trabalho, mas relevante. Infelizmente o “religiosismo” tomou conta do espiritismo por aqui, da mesma forma que o exoterismo a dominou no continente europeu e norteamericano.

O sincretismo no Brasil é tão evidente que os centros espíritas acabaram por assumir feições de templo e as práticas, em muitas casas, adotaram aspectos místicos e ritualísticos.

Se fosse um homem bom, teria morrido

Falando de um homem mau, que escapa de um perigo, costumais dizer: “Se fosse um homem bom, teria morrido.” Pois bem, assim falando, dizeis uma verdade, pois, com efeito, muito amiúde sucede dar Deus a um Espírito de progresso ainda incipiente prova mais longa, do que a um bom que receberá a graça de ter tão curta quanto possível a sua provação.

Porquanto, aquele que parte concluiu a sua tarefa e o que fica talvez não haja principiado a sua. Por que, então, haveríeis de querer que ao mau faltasse tempo para terminá-la e que o outro permanecesse preso à gleba terrestre?

Que diríeis se um prisioneiro, que cumpriu a sentença contra ele pronunciada, fosse conservado no cárcere, ao mesmo tempo que restituíssem à liberdade um que a esta não tivesse direito?

Ficai sabendo que a verdadeira liberdade, para o Espírito, consiste no rompimento dos laços que o prendem ao corpo e que, enquanto vos achardes na Terra, estareis em cativeiro.

Habituai-vos a não censurar o que não podeis compreender e crede que Deus é justo em todas as coisas. Muitas vezes, o que vos parece um mal é um bem.

Fenelon (espírito), 1861.
Trechos de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” Cap. V. 22

Estado laico

Um autocrata é alguém que usa dos meios necessários para impor seu ponto de vista, suas vontades. Se é um político, usará justamente do apoio popular quando perceber que parcela significativa da população também tem o mesmo “perfil”, o de impor suas “verdades” aos outros.

O discurso de laicidade não é novo e violações ao princípio do Estado Laico não é novidade. Laicidade significa não afirmar e não negar Deus e essa laicidade deve ser praticada como respeito às crenças de cada um e de todos (inclusive a crença em não ter crença), sem imposições e com respeito à convivência.

Um exemplo prático foi Mahtma Ghandi. Era induísta, mas no tempo em que morou e trabalhou na África do Sul, como advogado, fazia questão de dar a seus funcionários o direito de cada um expressar e viver sua fé. Respeitava seus feriados e hábitos, fossem eles judeus, cristãos ou mulçumanos, dava o direito de cada um a sua própria religiosidade e individualidade. Só havia um proibição: o desrespeito.

Mahtma Ghandi era hindu e, como era chefe e patrão, poderia impor sua crença e hábitos no seu escritório, mas fazia justamente o contrário, não somente se recusava “o direito” de impor e proibir, como fazia questão de que cada um exercesse com liberdade e respeito sua própria fé.

Para isso autorizava folgas, liberava os funcionários nos horários específicos dos rituais e assim por diante. É um exemplo que infelizmente não é considerado pela maioria das pessoas.

Vemos em órgãos públicos, por exemplo, imagens e crucifixos, que configuram um desrespeito ao princípio do Estado Laico e aos que professam crenças que não admitem culto de imagens. Num ambiente público e estatal não tem cabimento uma manifestação dessa natureza.

Estado Laico é, portanto, estado que respeita a convivência e a pluralidade de crenças e não crenças, abdicando de professar ou patrocinar qualquer forma de manifestação, seja afirmando ou negando uma crença ou religião.