Arquivo da tag: CARIDADE

Agir por caridade, caridosamente

Índice

Fazer o bem sem se exibir, sem ostentação, é um grande mérito. Esconder a mão que dá é ainda mais louvável. É o sinal indiscutível de uma grande superioridade moral, porque, para compreender além da vulgaridade comum as coisas do mundo, é preciso elevar-se acima da vida presente e se identificar com a vida futura. É preciso, em uma palavra, colocar-se acima da Humanidade para renunciar à satisfação que o aplauso dos homens proporciona e pensar na aprovação de Deus. Aquele que estima mais a aprovação dos homens do que a de Deus prova que tem mais fé nos homens do que em Deus e que a vida presente vale mais do que a vida futura. Se disser o contrário, age como se não acreditasse no que diz. Quantos ajudam apenas na esperança de que essa ajuda tenha grande repercussão; que, em público, dão uma grande soma e que ocultamente não dariam nem um centavo! Eis porque Jesus disse: Aqueles que fazem o bem com ostentação já receberam sua recompensa. De fato, aquele que procura sua glorificação na Terra pelo bem que faz já se pagou a si mesmo. Deus não lhe deve mais nada. Resta-lhe apenas receber a punição do seu orgulho.

Que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita é um ensinamento que caracteriza admiravelmente a beneficência modesta. Mas, se existe a modéstia real, há também a fingida, isto é: a simulação da modéstia. Há pessoas que escondem a mão que dá, tendo o cuidado de deixar à mostra uma parte da sua ação, para que alguém observe o que fazem. Ridícula comédia dos ensinamentos do Cristo! Se os benfeitores orgulhosos são desconsiderados entre os homens, muito mais o serão diante de Deus! Estes também já receberam sua recompensa na Terra. Foram vistos; ficaram satisfeitos por terem sido vistos: é tudo o que terão.

Qual será, portanto, a recompensa daquele que faz pesar seus benefícios sobre o beneficiado, que lhe obriga, de alguma maneira, os testemunhos de reconhecimento, que lhe faz sentir sua posição realçando as dificuldades e os sacrifícios a que se impôs por ele? Para este, nem mesmo existe a recompensa terrena, pois ele é privado da doce satisfação de ouvir abençoar seu nome. E aí está o primeiro castigo de seu orgulho. As lágrimas que ele seca em benefício de sua vaidade, ao invés de subirem ao Céu, recaem sobre o coração do aflito e o ferem. O bem que ele faz não lhe traz o menor proveito, pois, ele o lamenta, e todo benefício lamentado é moeda falsa e sem valor.

A beneficência sem exibicionismo tem um duplo mérito: além de ser caridade material é caridade moral. Ela respeita os sentimentos do beneficiado. Faz com que, em aceitando o benefício, seu amor-próprio não seja atingido, protegendo assim sua dignidade de homem, pois este poderá aceitar um serviço, mas não uma esmola. Acontece que converter um serviço em esmola, conforme a maneira como é proposto que se faça, é humilhar aquele que o recebe e sempre há orgulho e maldade em humilhar alguém. A verdadeira caridade, pelo contrário, é delicada, habilidosa e sutil em disfarçar o benefício, em evitar até as menores aparências que ferem, pois toda contrariedade moral aumenta o sofrimento do necessitado. Ela sabe encontrar palavras doces e afáveis que colocam o beneficiado à vontade em face do benfeitor, enquanto a caridade orgulhosa o humilha. O sublime da verdadeira generosidade é quando o benfeitor, invertendo os papéis, encontra um meio de parecer ser ele próprio o beneficiado frente àquele a quem presta um favor. Eis o que querem dizer estas palavras: Que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita.

Evangelho segundo o espiritismo, cap. 13, item 3.
Anúncios

A fé, a Esperança e a Caridade

caridade

“Ainda que eu fale todas as línguas dos homens, e mesmo a língua dos anjos, se eu não tiver caridade, sou apenas como o bronze que soa ou o címbalo que retine; e se eu tivesse o dom da profecia, e penetrasse em todos os mistérios, e tivesse uma perfeita ciência de todas as coisas, e ainda que eu tivesse toda a fé possível, até a de transportar montanhas, se eu não tiver caridade, nada sou.
E quando eu houvesse distribuído os meus bens para alimentar os pobres, e entregado meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, isso de nada me servirá.
A caridade é paciente, é terna e beneficente; a caridade não é invejosa, não é temerária nem precipitada; não se enche de orgulho, não é desdenhosa, não procura seus próprios interesses, não se vangloria nem se irrita com nada, não faz más suposições, não se alegra com a injustiça, mas sim com a verdade; ela tudo suporta, tudo crê, tudo espera e tudo sofre.
Agora estas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade permanecem, mas entre elas a principal é a caridade.” (Paulo, 1ª Epístola aos Coríntios, Cap. XIII: 1 a 7 e 13.)

Essa é sem dúvida uma das mais belas passagens da Bíblia. A inspiração divina é evidente e incontestável.

O que terá levado o “Apóstolo Tardiu” a escrevê-la? O que o terá inspirado?

Uma leitura atenta vai revelar tratar-se de uma autoanálise. Foi por ele compartilhada porque é universal. As propostas são reflexões típicas de quem questiona os próprios sentimentos e atitudes, algo comum para quem já é detentor da consciência da missão maior que os seres criados por Deus têm: evoluir. E tratando especificamente dos seres dotados de consciência – nós, humanos – evoluir em todos os aspectos: o material e, principalmente, o espiritual.

Paulo em nenhum momento quis desprezar a fé, nem a esperança, nem qualquer outra virtude. Todas são importantes, são benéficas e merecem ser cultivadas. Mas ele percebeu que as virtudes para serem verdadeiramente úteis à nossa evolução necessitam do “sal” da caridade. Para ele, fé e esperança são virtudes incompletas e, como tais, isoladamente de nada servem. A fé e a esperança sem a caridade são virtudes inativas, são como corpos sem alma.

Comparativamente, a fé e a esperança seriam a semente e o solo fértil. Sozinhas, não dão condições para fazer nascer o vegetal que trará o alimento que todos necessitamos para viver. Falta a e a água – a água da caridade. A vida em nosso planeta só existe por causa da água. A água da caridade é o que dá vida e ação à fé e à esperança.

Jesus pede para semearmos o quanto pudermos, no entanto, Ele nos ensina a semear em solo fértil que oferece garantias de que a semente vai se desenvolver, fincar raízes profundas a fim de produzir em abundância. Fazer diferente equivale a atirar pérolas aos porcos, é desperdiçar recursos valiosos. Não foi à toa que Paulo de Tarso pôs as palavras e as ideias em gradação: fé, esperança e caridade – semente sã, solo fértil e água. Realmente, aquelas duas virtudes só atingem seus fins se a terceira se fizer presente.

Somente a caridade fará multiplicar as bênçãos que a misericórdia de Deus põe em nossas mãos, todos os dias. Se queremos mesmo ser multiplicadores das dádivas divinas, façamos como nos recomenda Jesus e como nos esclarece Paulo.

Se queremos uma fé equilibrada e operante, devemos levá-la a um ambiente em que poderá florescer, mas sem caridade, corre-se o risco de se desenvolver ações sem objetivos verdadeiramente nobres ou pode levar ao destrutivo fanatismo religioso.

Cuide da mão esquerda e invista na mão direita

Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa mão direita; – a fim de que a esmola fique em segredo, e vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos recompensará. (MATEUS, 6: 3 a 4.)

Jesus é o modelo de perfeição a que a humanidade pode aspirar, disseram os espíritos à Allan Kardec (LE, 625). Foi o maior Pedagogo, o maior Psicólogo, o Médico dos Médicos, o Advogado fiel, o Amigo com qual todos podiam e podem contar.

Suas ideias e palavras são carregadas de profundo significado, sempre buscando tocar o espírito humano. Suas frases e parábolas encerram verdades profundas e ensinamentos de sublimidade que ainda hoje não nos foi possível absorver por completo e, sempre que se volta para elas, sorve-se um pouco mais do perfume e da beleza.

Quando Jesus proferiu o discurso que Mateus reproduziu, suas palavras – parecendo inocentes – não estavam se referindo tão somente aos nossos membros superiores. Uma interpretação do significado espiritual se faz necessária para tentar absorver um pouco da lição verdadeira.

A cultura da época era rica em símbolos, Jesus como profundo conhecedor da cultura a que pertencia sabia disso. Em diversas passagens da Bíblia – do novo e do velho testamentos – encontram-se diversas alusões às mãos, quase sempre deixando evidente tratar-se da esquerda ou da direita. Há passagens que se referem às mãos (Isaías 41:13; Salmos 80:15; 1 Pedro 3: 22; Atos 7: 56), outras não, mas a questão do lado esquerdo ou do lado direito está lá (Marcos 14: 62 – 16: 19; Romanos 8:34).

O que Jesus quis dizer?

As pessoas têm um lado do corpo predominante, com mais força ou habilidade. A maioria é destra, ou seja, tem o lado direito dominante. Quem tem o lado esquerdo mais atuante e habilidoso, diz-se canhota.

Destro quer dizer habilidoso, ágil, sagaz, correto. Canhoto tem mesma raiz de canhestro, acanhado, significando desajeitado, grosso, torto, tanto que em tempos passados a palavra também era usada como sinônimo de demônio e diabo. Felizmente, hoje isso é passado e a ciência comprovou que ser destro ou canhoto não faz de ninguém melhor ou pior e que é tão relevante quanto a cor dos cabelos ou dos olhos, o formato da orelha ou do nariz.

Sem pretensão de monopólio da verdade e buscando o pensamento de gente mais gabaritada e experiente em evangelho, percebe-se que uma das interpretações possíveis da lição é a de que ela pretende ressaltar que ao realizarmos uma boa ação (dar esmola, por exemplo), devemos praticá-la com a “mão direita” (agir corretamente, praticar o ato por caridade, enfim, seja nossa boa índole atuando) e que a “mão esquerda” não deverá ficar sabendo (agir movido por vaidade, caridade fingida, ação calculada visando benefício próprio).

Portanto, parece claro que Jesus pretendeu ensinar que ao praticar-se uma boa ação, seja qual for, devemos fazê-la utilizando nosso lado bom, que é a manifestação do sentimento de caridade, a vontade sincera de ajudar, sem querer qualquer tipo de recompensa, vantagem ou reconhecimento. Que devemos vigiar nosso lado sombra, pois ele pode querer apropriar-se da intenção de fazer o bem e transformá-la numa ação egoísta, calculada, vaidosa e apegada a resultados ou a reconhecimentos (o aplauso dos homens).

A satisfação pela ação no bem deve ser íntima, não vaidosa, que se traduz na alegria pela oportunidade de praticá-la, pela oportunidade de ver um rosto triste transformar-se em expressão de felicidade. Mahatma Ghandi denominava: “trabalho desapegado”.

Façamos nossa autoanálise e busquemos constatar se nossas ações no bem são verdadeiramente desapegadas. Se praticamos a virtude pelo bem da virtude, ou se estamos a buscar algo em troca ou reconhecimento. Se nossas ações visam melhorar o mundo em que vivemos, ajudando às pessoas a saírem do fosso da ignorância e do sofrimento.

Ao agir no bem estamos cuidando para que “a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita”?